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Raciocínio é Planejamento: o que o RAP muda na forma como LLMs pensam

Como o framework RAP (Reasoning via Planning) transforma um LLM em agente e world model ao mesmo tempo, e usa Monte Carlo Tree Search para destravar planejamento deliberado — superando GPT-4 com CoT em Blocksworld usando apenas LLaMA-33B.

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Raciocínio é Planejamento: o que o RAP muda na forma como LLMs pensam

Tem um paper de 2023 que envelheceu muito bem: "Reasoning with Language Model is Planning with World Model" (Hao et al., EMNLP 2023, arXiv:2305.14992).

É um daqueles trabalhos cuja ideia central virou senso comum sem que muita gente lembre da fonte. Hoje, quando você ouve falar em "tree-of-thoughts", "agentes com search", "LLM-as-world-model" ou MCTS aplicado a raciocínio — boa parte do alicerce conceitual está aqui.

Vou destrinchar o que o paper propõe, por que funciona, e o que isso importa para quem constrói com LLM hoje.

O problema: Chain-of-Thought é intuição, não deliberação

LLMs grandes ficaram muito bons em raciocínio "Sistema 1" — aquele rápido e associativo. Chain-of-Thought (CoT) é o exemplo canônico: você pede para o modelo "pensar passo a passo" e ele desenrola uma sequência de tokens que, com sorte, leva à resposta.

O problema é que CoT é fundamentalmente autorregressivo e gananciosos. O modelo:

  • não mantém um estado interno explícito do mundo;
  • não antecipa as consequências de uma ação;
  • não revisita escolhas ruins;
  • não compara trajetórias alternativas.

Isso quebra em tarefas que exigem planejamento deliberado: Blocksworld, matemática em múltiplos passos, inferência lógica encadeada. Tarefas onde a resposta certa exige olhar à frente antes de comprometer-se com um passo.

Em humanos, isso é o "Sistema 2" — o cérebro deliberativo que simula mentalmente cenários ("se eu fizer X, o mundo fica Y") antes de agir. E para fazer isso, precisamos de duas coisas: um modelo interno do mundo + um mecanismo de busca sobre futuros possíveis.

A virada: o LLM já é um world model

A sacada do RAP é elegantemente simples:

O LLM já tem, implicitamente, um modelo do mundo. Basta promptar ele para esse papel.

Em vez de usar o LLM apenas como gerador de próxima ação (o agente), o RAP reaproveita o mesmo LLM em dois papéis simultâneos:

  1. Agente de raciocínio — propõe a próxima ação dado o estado atual.
  2. World model — prevê o próximo estado dado um estado e uma ação.

Formalmente, isso vira um MDP (Markov Decision Process): estados, ações, transições, recompensas. Tudo pilotado pelo mesmo modelo, com prompts diferentes.

Os autores mostram que "estado" e "ação" se materializam de formas naturais por tarefa:

TarefaEstadoAção
Blocksworldconfiguração das pilhas de blocos"pick up the orange block"
Matemática (GSM8K)sub-perguntas + respostas intermediáriaspróxima sub-pergunta
Inferência lógica (PrOntoQA)conjunto de fatos derivadospróxima regra a aplicar

O motor: Monte Carlo Tree Search no espaço de raciocínio

Tendo um world model, o RAP aplica MCTS — o mesmo algoritmo que destravou Go com AlphaGo — sobre a árvore de pensamentos.

Cada nó da árvore é um estado de raciocínio. Cada aresta é uma ação proposta pelo LLM. MCTS roda em quatro fases por iteração:

  1. Selection. A partir da raiz, desce pela árvore usando UCT (Upper Confidence bound for Trees), balanceando exploração (caminhos pouco visitados) e exploração (caminhos com alto Q-value).
  2. Expansion. No nó-folha, o LLM-como-agente amostra d ações candidatas. Para cada ação, o LLM-como-world-model prevê o próximo estado.
  3. Simulation. Faz um rollout até um terminal (ou profundidade máxima), escolhendo ações de forma "leve" — políticas baratas para estimar recompensa futura.
  4. Backpropagation. A recompensa observada volta pela árvore, atualizando o Q-value de cada par (estado, ação) no caminho.

Depois de N iterações, o caminho com maior recompensa acumulada é a resposta final.

O ingrediente sutil: como projetar recompensa sem ground truth

Esse é o ponto que faz o RAP funcionar na prática — e o que é fácil ignorar em uma leitura rápida.

Você não tem acesso ao oráculo da tarefa em tempo de inferência. Então a recompensa precisa ser construída a partir do próprio LLM. Os autores combinam, conforme a tarefa:

  • Likelihood da ação. Log-prob do LLM ao gerar a ação dado o estado — confiança "in-context".
  • Confiança do estado. O LLM pode votar várias vezes em qual é o próximo estado; a fração que concorda vira sinal.
  • Self-evaluation. Pergunta direta ao LLM: "este passo está correto? Sim/Não" — usando a probabilidade do "Sim".
  • Heurísticas específicas da tarefa. Em Blocksworld, número de submetas atingidas; em GSM8K, utilidade da sub-pergunta.

A recompensa é uma agregação ponderada dessas fontes. Não é perfeita — mas é boa o bastante para guiar MCTS na direção certa.

Os resultados: pequeno modelo + busca > modelo gigante + greedy

Aqui mora a parte que mais chama atenção.

Blocksworld (planejamento, LLaMA-33B vs GPT-4):

Método2-step4-step6-step
CoT (LLaMA-33B)0.170.020.00
CoT (GPT-4)0.500.630.40
RAP (LLaMA-33B)1.000.860.42

LLaMA-33B com RAP supera GPT-4 com CoT em 33% relativo. Em 4-step, a diferença é gritante: 86% vs 63%.

GSM8K (matemática): RAP com LLaMA-33B atinge ~48,8%, contra ~46,8% do CoT + Self-Consistency mais caro. Ganho consistente reduzindo o número de amostras.

PrOntoQA (lógica): RAP atinge 94,2% de precisão completa (proof + answer), contra 89,5% do CoT + SC. Em casos difíceis, a margem cresce.

Por que isso importa em 2026

Quando o paper saiu em maio/2023, parecia "ideia bonita, mas cara". Três anos depois, três coisas ficaram claras:

  1. A linhagem é gigante. Tree-of-Thoughts, Graph-of-Thoughts, agentes com planning, OpenAI o1/o3, Deepseek-R1 — todo o paradigma de "test-time compute" descende dessa mesma intuição: gastar mais inferência em busca rende mais que escalar o modelo.
  2. O LLM-as-world-model é subutilizado. A maioria dos sistemas de agente hoje ainda trata o LLM só como gerador de próxima ação. O RAP lembra que ele também sabe simular consequências — basta promptar.
  3. MCTS sobrevive porque é robusto. Frameworks novos (RLHF de longa cadeia, process reward models) eventualmente caem em estruturas parecidas: explorar, simular, avaliar, atualizar.

O que eu levo para o trabalho do dia a dia

Construindo com agentes, três princípios do RAP entraram na minha caixa de ferramentas:

  • Separe os dois papéis no prompt. Quando o agente também precisa antecipar consequências, divida explicitamente: um prompt para propor ação, outro para simular o estado resultante. A precisão sobe.
  • Trate confiança como sinal de busca. Log-probs, votação majoritária, self-evaluation. Use esses sinais como heurística — não como verdade — para decidir onde gastar mais compute.
  • Lookahead barato vence greedy caro. Simular 3 passos à frente com modelo pequeno geralmente bate 1 passo greedy com modelo top. Em agentes de código, isso se traduz em "antes de aplicar o diff, simule mentalmente o que o teste vai dizer".

Limitações honestas

O paper não esconde os custos:

  • MCTS exige múltiplas chamadas ao LLM por nó — caro em latência e em tokens.
  • A qualidade do world model é o teto: se o LLM erra a simulação, MCTS confia em alucinação.
  • O reward design é artesanal por tarefa — não há recompensa universal.

Para tarefas onde o custo de errar é alto (planejamento, raciocínio matemático rigoroso, multi-step agents), o trade-off compensa. Para chatbots conversacionais, não.

Fechando

Se você está construindo qualquer coisa com agentes em 2026, vale ler o paper original com olhos novos. Não pela arquitetura específica — você provavelmente não vai implementar MCTS na mão — mas pela mudança de mentalidade:

Raciocínio não é gerar tokens. Raciocínio é simular futuros e escolher o melhor.

E o LLM já sabe fazer as duas coisas. Só precisa de um prompt que peça.


Paper: Reasoning with Language Model is Planning with World Model — Shibo Hao, Yi Gu, Haodi Ma, Joshua J. Hong, Zhen Wang, Daisy Z. Wang, Zhiting Hu. EMNLP 2023. Código: github.com/Ber666/llm-reasoners

Thiago Marinho

16 de maio de 2026 · Brazil