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Tenho mais medo do arrependimento do que de quebrar a cara

Uma reflexão sobre sair da estabilidade, tentar uma carreira internacional em tecnologia e aceitar que algumas decisões fazem sentido mesmo quando doem.

Tenho mais medo do arrependimento do que de quebrar a cara

Meu terapeuta sempre diz que é melhor arriscar do que se arrepender depois de não ter feito.

Essa frase ficou na minha cabeça porque ela toca em um medo muito específico: não é só o medo de falhar. É o medo de chegar em uma idade futura, olhar para trás e pensar:

"E se eu tivesse tentado?"

Eu tenho mais medo desse arrependimento do que de quebrar a cara por ter feito algo.

Quebrar a cara dói. Dá vergonha. Custa dinheiro, energia, tempo e às vezes paz. Mas pelo menos deixa uma resposta. Você tentou, viu o que aconteceu, aprendeu alguma coisa e segue com uma cicatriz que também vira repertório.

O arrependimento de não tentar é diferente. Ele fica mais nebuloso. Não dá para saber se teria dado certo. Não dá para medir o quanto você teria crescido. Não dá para voltar naquele ponto exato da vida com a mesma idade, a mesma energia, as mesmas oportunidades e as mesmas pessoas ao redor.

Quando eu saí da estabilidade

Foi movido por esse pensamento que eu decidi sair de um concurso público para tentar me tornar desenvolvedor para empresas de fora.

Na época, não era uma decisão simples.

Concurso público tem estabilidade, previsibilidade e uma sensação de segurança que muita gente valoriza, com razão. Eu também valorizava. Só que, ao mesmo tempo, existia dentro de mim uma inquietação enorme.

Eu queria viver outra vida profissional.

Queria trabalhar com tecnologia em outro nível. Queria usar inglês de verdade. Queria conhecer ambientes diferentes. Queria descobrir até onde eu conseguiria chegar se eu me colocasse em um jogo maior.

E sim, eu também queria ganhar melhor.

Não acho que exista vergonha nenhuma em admitir isso. Dinheiro não resolve tudo, mas ele muda muita coisa. Ele compra tempo, opções, conforto, experiências e a possibilidade de construir coisas que antes pareciam distantes.

Nem tudo foi bonito

Hoje eu continuo ralando no mercado.

Quem vê de fora pode imaginar que trabalhar para fora é só salário em dólar, liberdade e LinkedIn bonito. Mas a realidade também tem pressão, insegurança, entrevistas difíceis, inglês travando, layoff, competição global, mudança de stack, cobrança alta e a sensação constante de precisar provar valor.

Mesmo assim, eu não me arrependo de jeito nenhum.

Porque, olhando para trás, eu vivi coisas que provavelmente não viveria se tivesse ficado no mesmo lugar.

Eu vivi meu sonho.

Fiz mais dinheiro do que faria onde eu estava.

Evoluí no inglês muito mais do que antes, mesmo sabendo que ainda preciso melhorar bastante.

Aprendi tecnologias novas.

Conheci ambientes, empresas e culturas diferentes.

Participei de eventos.

Tive mentores e também dei mentoria, ajudei pessoas a entrarem no mercado internacional.

Construí uma casa.

Nada disso apaga as dificuldades. Mas também não dá para fingir que essas conquistas teriam acontecido do mesmo jeito se eu tivesse escolhido apenas preservar a estabilidade que eu já tinha.

O risco também constrói

Às vezes a gente trata risco como se ele fosse apenas uma ameaça.

Mas risco também é um ambiente de crescimento.

Quando você muda de rota, você é obrigado a aprender. Aprende técnica, aprende idioma, aprende negociação, aprende a se vender melhor, aprende a lidar com rejeição, aprende a pedir ajuda, aprende a começar de novo.

Não é romântico. Na prática, muitas vezes é cansativo.

Mas existe uma versão sua que só aparece quando você se coloca em movimento.

Eu não teria descoberto muita coisa sobre mim se tivesse ficado apenas no caminho mais seguro. Talvez eu tivesse menos preocupação. Talvez tivesse mais previsibilidade. Talvez tivesse menos noites difíceis.

Mas também teria menos história.

E agora de novo

Depois de cinco anos, eu estou de novo com aquele negócio de querer fazer algo diferente.

Não sei se isso é inquietação, ambição, curiosidade ou incapacidade de sossegar.

Talvez seja um pouco de tudo.

Mas hoje eu olho para esse impulso com mais carinho. Antes eu achava que precisava escolher uma vida e ficar nela para sempre. Agora eu entendo que algumas fases existem para serem vividas, absorvidas e depois transformadas.

Eu me contento com tudo que ganhei e também com tudo que perdi nesse tempo.

Ganhar ensina.

Perder também.

E talvez maturidade seja isso: parar de tentar montar uma vida sem perdas e começar a escolher quais perdas fazem sentido carregar.

O que eu penso hoje

Não estou dizendo que todo mundo deve largar estabilidade, emprego, concurso, cidade ou carreira para correr atrás de um sonho.

Cada pessoa tem sua história, sua família, seus limites, suas responsabilidades e seu momento.

Mas eu acredito cada vez mais nisso:

existe um custo em tentar, mas também existe um custo em não tentar.

O primeiro costuma aparecer rápido. O segundo aparece anos depois.

Para mim, pelo menos até aqui, fez sentido pagar o custo de tentar.

Eu quebrei a cara algumas vezes. Ainda vou quebrar outras. Mas prefiro lidar com as marcas de quem tentou do que com o silêncio pesado de quem passou a vida imaginando o que poderia ter sido.

— escrito por Thiago Marinho

7 de maio de 2026 · Brazil